Relato de uma subjetividade atravessada pela COP30
- Gabriela Alves

- 26 de nov. de 2025
- 2 min de leitura

Por conta do entra e sai entre o ar-condicionado gelado das salas e os quarenta graus úmidos de Belém, eu perdi completamente a voz já no quarto dia de COP.
No começo achei que era só um processo biológico: o choque térmico, o corpo reagindo, a garganta fecha, simples. Mas, conforme os dias foram passando, senti que havia um recado ali.
Eu me vi encurralada por um processo que era físico, sim, ao mesmo tempo simbólico.
Como se o meu corpo estivesse me dizendo: não é você que fala agora.
De repente, toda a minha organização de produção de conteúdo, as gravações planejadas, os relatos diários, as análises, se dissipou diante da impossibilidade de pronunciar uma frase inteira sem soar como se eu tivesse fumado cigarros por anos (o que, claro, não faço). Para completar o recado, no sexto dia o meu microfone simplesmente quebrou.
Era como se cada tentativa de forçar uma palavra fosse também forçar um lugar que não era meu.
E eu, que sempre tento caminhar atenta aos sinais da vida, li aquilo quase como uma mensagem: Em terra de encantados, eu, uma sudestina, precisava mais ouvir do que falar.
Não era hora de ocupar um papel que não me cabia. Belém me atravessou justamente por isso: porque minha voz falhou, minha garganta doía, no exato território onde outras vozes, historicamente silenciadas precisavam ecoar com força. Não era sobre mim.
O Norte passou décadas sendo invisibilizado, caricaturado, tratado com desdém pelos próprios brasileiros. E agora, num momento histórico, numa COP que acontece na Amazônia e que deveria, por princípio, amplificar as vozes amazônidas, indígenas, ribeirinhas, pretas, periféricas, jovens, eu entendi que o protagonismo não deveria partir de mim.
Meu corpo me devolveu esse limite; ele literalmente me calou para que eu pudesse reconhecer a potência de quem sempre falou apesar da ausência de microfones.
Perder a voz, ali, me fez lembrar que comunicação é escuta, que narrar é também não dizer, que presença também é recolhimento. E que há momentos em que a nossa responsabilidade não é disputar espaço, mas reconhecer quem já segurou a pauta com o próprio corpo muito antes de nós.
Em Belém, percebi que a COP não atravessa só a política internacional, ela atravessou GENTE e suas subjetividades, corpos e memórias.
A COP te exige porosidade. Te pede para rever sua intenção, sua postura, sua narrativa. E, no meu caso, ela pediu algo especifico: pediu silêncio e escuta.
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Ali, onde a floresta respira mais alto que qualquer discurso, eu entendi que tem horas em que o melhor que posso fazer pela luta é reconhecer a sua insignificânciapara poder viver o coletivo.






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